REVOLVER  


Revolver

Título original: Revolver
Ano de estreia: 2005
Direção: Guy Ritchie
Historia original: Luc Besson
Duração: 115 minutos

Elenco:

Jason Statham ... Jake Green
Ray Liotta ... Dorothy Macha
Vincent Pastore ... Zach
André Benjamin ... Avi
Terence Maynard ... French Paul
Andrew Howard ... Billy




Sinopse

Um dos filmes recentes mais subestimados, desprezado pela crítica e pouco visto pelo público. “Revólver” (2005) de Guy Ritchie é uma espécie de cavalo de troia: sob uma embalagem que comercialmente lembra seus sucessos passados como “Snatch” (2000), na verdade o diretor nos oferece uma complexa e instigante jornada interior de um protagonista imerso em um jogo de trapaças e violência. Ele terá que descobrir que o maior inimigo se esconderá no último lugar que você procuraria: no interior do próprio Ego. Por isso a narrativa será sempre pontuada com a famosa exortação gnóstica - "Acorde!".

O Filme

Jake Green (Jason Statham) é um homem de jogo. Gosta de apostar com frequência. Ganha sempre. Um dia Green vai jogar com Macha (Ray Liotta), um poderoso homem dono de um cassino local e mestre do crime organizado. Há cerca de 11 anos Jake envolveu-se num esquema de Macha, o que levou a uma condenação de 7 anos de prisão na solitária. Desde aí Jake procura vingar-se dele, através de uma série de golpes que o levam a progressivos prejuízos financeiros.

Green aproveita esta opurtunidade e vence humilhantemente Macha. Furioso, Macha ordena aos seus homens que matem Jake. Jake consegue sobreviver inacreditavelmente à primeira tentativa de homicídio. Um carro para perto de Jake e aí conhece a dupla Avi (André Benjamin) e Zack (Vincent Pastore). São dois homens misteriosos que propões a Jake o seguinte negócio: "Já lhe salvamos a vida, a próxima não será de graça.", para assegurar a proteção da sua vida, Jake tem que respeitar duas condições. Tem que dar a estes dois sujeitos todo o dinheiro que tem, absolutamente tudo. A segunda condição é não fazer perguntas e obedecer a tudo o que eles digam. Avi afirma "Nós não somos o inimigo. Mas vai aprender a nos temer e nos respeitar mais que ao teu pior inimigo."

Mas há um personagem poderosíssimo e onipresente na história: Mr. Sam Gold. Macha deve dinheiro a ele. Mr.Gold é implacável e temido por todos e diz-se que sabe tudo e que ninguém pode enganá-lo. O curioso é que Mr. Gold é tão misterioso que nem sequer aparece no filme. Paralelamente a este problema, Macha tem que lidar com Jake Green, pois descobre no meio da narrativa que existem contas passadas a ajustar com ele. O enredo de “Revolver” começa a ficar cada vez mais complexo e instigante, em um roteiro sem falhas cujo ponto forte é a edição onde cortes rápidos, contrapontos e sucessivas quebras de eixo pontuam os diálogos interiores dos personagens, e cada vez mais as diferenças entre realidade e delírio começam a ficar instáveis.

Guy Ritchie se encontra com Jung

Quanto mais o filme avança, mais ele se torna enigmático e metafísico. Em muitos momentos o espectador pensa estar diante de linhas de diálogo esotéricas, repletas simbologias cabalísticas e numerológicas. O próprio diretor em entrevistas diz o contrário: “Eu não acho que há influências cabalísticas sobre o filme. Se houver, eu gostaria que alguém me apontasse onde elas estão. Mas o filme é sobre o conceito de Ego. É sobre essa trapaça.” (ORANGE, Alan. “Exclusive: Guy Ritchie Cons His Own Ego in ‘Revolver’”In: MovieWeb, 29/11/2007).

E ele fala mais:

O Ego é uma coisa que está em seu subconsciente. Você acredita que ele controla você. Mas você o controla. Este filme é sobre o fato de que você está completamente encarcerado pela sua auto consciência. Agora, o truque é, nem sua mente, nem o Ego vai deixar você compreendê-lo e ser claro sobre isso. É muito feliz a ideia de que Ego é um cara muito violento e que quer ser notado. O ego quer que você continue a pensar nisso. Por quê? Porque se você começar descobrir o que é realmente o ego, então você começa a tomar a tirar o poder dele. É como um fantasma interno, suponho.” (IDEM).

A partir do ponto em que o protagonista Jake Green fala que “somos apenas macacos embrulhados em ternos suplicando pela aprovação dos outros”, a narrativa começa a mergulhar numa jornada interior do personagem que faz lembrar o filme “O Clube da Luta” (1999): todos os personagens ao redor de Jake parecem ser projeções ou partes da luta psíquica do protagonista com ele mesmo. Por trás de trapaceiros autoconfiantes e poderosos se esconde o medo e a ansiedade infantil de querer ter a aprovação dos outros.

Para Guy Ritche, o Ego seria isso: uma cristalização de uma autoimagem a partir de uma expectativa que achamos que os outros têm de nós – e tudo isso composto através de medo e sofrimento.

Dessa forma “Revolver” aproxima-se da perspectiva da formação do Self na psicanálise de Carl Jung. Para Jung o Self é a resultante da unificação da consciência e inconsciência no processo de individuação, formando o psiquismo como um todo. Com o tempo, um ego separado e consciente começa a se desenvolver, rompendo com o original sentimento de unidade. Esse seria o lado escuro do Self: por ser a força mais poderosa do psiquismo, no dia-a-dia ele começa a se projetar em forças poderosas como Estado, Deus, Universo e Destino, fazendo o indivíduo perder não apenas o contato com a realidade, mas a ansiosamente procurar o amor/aprovação nessas entidades. O outro lado da megalomania do Ego seria a destrutiva inflação da personalidade direcionada pelo medo e sofrimento por não ter sua autoimagem correspondida.

Segundo Jung, a saúde psíquica dependeria de um periódico retorno ao senso de Self facilitado pelo uso de mitos, ritos de passagem, cerimônias de iniciação etc.

É interessante como no filme os ambientes onde circulam os personagens possuem inúmeros objetos decorativos míticos como sarcófagos egípcios, arabescos, mandalas etc. Ao lado disso, os alter-egos represantados por Avi e Zack constantemente fazem a exortação gnóstica “Acorde!” ao protagonista. É como se as imagens míticas ao redor do protagonista sinalizassem para que ele abandonasse seu ego cristalizado e despertasse para uma realidade: todos os personagens imersos em um jogo que envolve drogas, dinheiro e poder são manipulados/seduzidos por uma figura ao mesmo tempo onipresente e ausente chamado Sam Gold.

Sam Gold (God?)

No filme Sam Gold é nomeado como “Sr. Mistério”, “Sr. Ambíguo” e aquele “que está em sua cabeça”. “Todos estão no seu jogo, está tudo em sua cabeça, fingindo ser você. Todos estão em seus jogos e ninguém sabe disso, e tudo isso é o mundo dele, ele é o dono, ele controla esse mundo.”

Sam Gold sugere um irresistível trocadilho: “Son God”, ou “filho de Deus”. Todas as linhas de diálogo se reportam a esse personagem onipresente e onisciente como uma espécie de Demiurgo, sempre representado pela sua espécie de porta-voz “Miss Walker”, sinistra figura acompanhada por um séquito de belas modelos. Sua primeira aparição no filme é o seu encontro com Macha em uma enorme sala com o teto com afrescos renascentistas, lembrando a capela Cistina no Vaticano – Miss Walker seria o papa, suposto representante terreno de Deus?

Todas as trapaças, tensões e dilemas são parte de um jogo incitado e sustentado por Sam Gold. Todos parecem temê-lo e dever algo a ele – seja dinheiro, favores ou simplesmente medo difuso. Já vimos isso em algum lugar... nas relações entre o Deus vingativo e intolerante das religiões e o homem corroído por culpa e pecado.

A grande virtude de “Revólver” e mostrar como isso faz parte da própria estrutura do processo de individuação que conteria dois lados de uma mesma moeda: de um lado um ego aparentemente poderoso, megalomaníaco e racional (representado no filme pela presença constante do jogo de xadrez); e do outro o seu lado escuro, o medo do fracasso, de não ter a aprovação do Outro (Deus, Sociedade, Estado etc.).

Jake Green busca essa gnose ao longo de toda a narrativa: ele somente se libertará do jogo se deixar de temer seus inimigos externos e descobrir que o seu maior inimigo está dentro dele mesmo.

by Wilson Roberto Vieira Ferreira